Todos os dias ela acordava às sete para comer uma fruta e café com leite no desjejum. Depois seguia às orações que não eram muitas mas, como tirava alguns cochilos e não tinha pressa de terminar, duravam toda manhã. Na hora do lanche, às dez em ponto, havia uma pequena interrupção, quando lhe traziam um suco contra a fraqueza. Mas logo voltava aos terços da Libertação ou da Misericórdia ou da Batalha, a depender para quem estivesse rezando.

Naquela quinta-feira não foi diferente. Acordou no horário de costume e seguiu em seu ritmo lento para a mesa de jantar onde…

A água morna enchia a boca e escorria pelos lábios. Ela estava naquela posição há alguns minutos, encarando o chuveiro de olhos fechados enquanto sentia a água descer por todo corpo. Talvez assim a limpasse também por dentro. Estava relaxada por causa do banho, mas também porque tinha acabado de sair da aula de yoga. Lavou e condicionou o cabelo, depois limpou o rosto com um sabonete especial e então o corpo. Seguia um método e fazia tudo bem demorado por preguiça de sair do banho e começar o trabalho.

O trabalho era na bancada da cozinha americana que dividia…

Duas irmãs de idades próximas, sete e cinco anos, brincavam de se esconder com o avó, no quintal da casa. Gordo e preguiçoso, ele se colocava sentado num banco de cimento que um dia construiu e fechava os olhos com a mão contando até dez devagar.

Elas procuravam desesperadamente um lugar para se esconder. A mais velha subiu no pé de araçá e a mais nova, que era também a mais esperta, foi para atrás do tanque de água a quinze metros do avô. …

Ela achou esquisito ter alguém apaixonado por si, aquilo nunca tinha acontecido. Mentira, tinha sim. Mas todos os outros garotos até então não tinham aquela malícia. Aos nove anos, um colega com quem brincava de polícia e ladrão parou no meio da correria para gritar na sua cara “eu gosto de você!” Ela achou engraçado e continuou a brincadeira sem nem pensar o que aquilo significava.

Mas com esse era diferente, ele ficava dizendo coisas que a deixavam sem graça, pegava em seu rosto quando ela menos esperava e falava a todo mundo que eles iam namorar. …

Chegou a dar um passo para frente como que se fosse abraçar mas parou no meio do caminho e só apertou o olho com um sorriso e disse “obrigada”. Otávio desejou que ela tivesse abraçado mas não disse nada, só a esperou fechar o carro para irem juntos até o seu.

Eram seis e meia da manhã e a vizinhança ainda dormia quando o rapaz do apartamento 302, do edifício Jardim dos Pássaros, na residencial rua das Acácias, imitava a bateria de My Propeller, de Arctic Monkeys, a meia altura. Não tinha passado pela cabeça dele que poderia acordar alguém, na verdade só queria se livrar daquela música que estava presa em sua mente há três dias, e achou que a melhor forma de fazer isso era escutando. …

Quando ela ficava brigada, não conseguia segurar os sentimentos e descarregava todas as angústias sobre ele. Falava tudo o que estava pensando de todos os males que estava sofrendo, principalmente quando algum era por culpa dele. Desafogava.

Quando ele ficava brigado, engolia todas as palavras e passava dias com a cara fechada sem que ninguém soubesse o motivo. Calava. Era preciso uma investigação minuciosa de todos os momentos vividos até ali, para que ela entendesse o que levou os dois a chegarem àquele ponto. Ela quase sempre conseguia entender o motivo, quando errava era por questão de direcionamento.

Os dias…

Ele falava sério, com uma voz forte que passava segurança e a cada vez que ela lhe ouvia explicar qualquer coisa sentia vontade de se jogar em seus braços. Ela observava séria, como se quisesse mostrar que estava prestando atenção e em alguns momentos ela conseguia identificar nele uma risada de canto de boca antes dele virar o rosto pro lado de lá, como que para evitar ser pego. Ele era perfeito, do jeito que não se pode descrever porque provoca inveja entre homens e mulheres. E ainda tinha uma voz que fazia ela querer se jogar em seus braços.

A água da pia caía forte sobre a panela de molho na tentativa de fazer o queijo se soltar mais fácil. Há pouco, ela tinha colocado toda sua habilidade de cozinheira num macarrão com tomate e bastante parmesão para um almoço que fez sozinha, na bancada da cozinha, e agora tinha que limpar a própria sujeira.

Eram dias difíceis, dias que a angústia rondava fazendo ela questionar todas as decisões que a levaram até ali. Não que tivesse tomado muitas decisões na vida. Nunca se arriscou buscando criar novas oportunidades, sempre lidou com o que a vida oferecia a uma…

Ela e o marido estavam querendo chegar no supermercado de outro bairro, a pé, no meio da pandemia. Eles não conheciam o lugar e atravessaram uma ilha em formato de cruz (tinha o nome Monte Pascoal? Ou Santa Cruz?) cheia de pessoas tomando banho no mar. A ilha estava afundando e eles chegaram a nadar num trecho para chegar do outro lado, no continente. Acordou antes que alguma coisa ruim acontecesse.

Pegou o celular que estava carregando ao lado da cama e foi para a sala. Lá no sofá ligou a TV para assistir as notícias, enquanto entrava nas redes…

Hoje acordei com ressaca das viagens que fiz enquanto sonhava e por isso passei a manhã melancólica, inconformada com a minha vida real. Ao meio dia preparar a comida me deu bom-humor e enquanto eu saboreava a sobremesa me peguei cantando música de carnaval. À noite, depois de um dia monótono de trabalho, estou exausta e só penso em dormir. Tomara que não viaje por aí novamente. É preciso dar um pouco de descanso à alma.

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Larissa Seixas

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